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Feira de Arte dos Povos Indígenas movimenta R$ 500 mil em estreia em São Paulo

Evento aconteceu no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

A terceira edição da Feira de Arte dos Povos Indígenas resultou em R$ 500 mil em comercialização. A programação reuniu obras, produtos e criações de 100 artistas de 52 povos de todas as regiões do Brasil, entre 16 e 19 de abril, no parque Ibirapuera, em São Paulo. As outras edições ocorreram em Belém e em Brasília.

A feira fez parte da Bienal Brasileira de Arquitetura (BAB) e se encerrou com o Festival Raízes Ancestrais, realizado no Espaço Cultural Elza Soares, na região central da cidade. A programação ampliou o diálogo entre arte, território, memória, ancestralidade e futuro. Com objetivo de investir em autonomia, sustentabilidade e transformação social, a iniciativa é da Mídia Indígena, com realização do Ministério dos Povos Indígenas, execução do Instituto No Setor e produção da Maraca.pro.

A marca de R$ 500 mil movimentados não surgiu por acaso. Desde o início, a feira foi estruturada com planejamento técnico, metodologia própria e acompanhamento diário das vendas e da circulação econômica. Houve um processo cuidadoso para garantir que obras e produtos saíssem dos territórios e chegassem a São Paulo com dignidade, segurança e valorização. A organização acompanhou logística, montagem, acolhimento das delegações, organização dos espaços e sistematização dos resultados.

Diversos expositores comercializaram integralmente seus estoques ao longo dos quatro dias, evidenciando o forte interesse do público e a potência econômica da produção indígena quando encontra estrutura adequada de circulação e visibilidade. “Esse resultado de R$ 500 mil mostra que a arte indígena tem força econômica, tem público e tem futuro. Quando existe organização, metodologia e respeito ao protagonismo dos povos indígenas, o retorno acontece. A feira provou que os territórios indígenas produzem beleza, conhecimento e renda”, afirma Hony Sobrinho, coordenador da feira.

A diversidade de participantes também revelou a sofisticação do ecossistema econômico presente nos territórios indígenas. A feira reuniu artistas independentes, marcas autorais, associações comunitárias, cooperativas e iniciativas coletivas, mostrando diferentes formas de produzir, circular riqueza e sustentar modos de vida. Entre os povos presentes estiveram representantes Yanomami, Guarani Mbya, Baré, Kambeba, Boe Bororo, Pataxó, Galibi-Marworno, entre outros. As diversas iniciativas multiétnicas, além de representações de todos os biomas do país, reforçam o caráter plural, nacional e territorial deste encontro.

A feira mostrou ao público que a arte indígena não cabe em rótulos simplificados. Ela é ancestral e presente, tradicional e inovadora, comunitária e autoral. Cada obra apresentada carregava técnicas transmitidas entre gerações, conhecimentos territoriais e visões de mundo que seguem vivas e em constante criação. Não eram intermediários narrando essas trajetórias. Eram os próprios artistas, criadores e produtores presentes, explicando processos, cosmologias, materiais e relações com a terra.

Foram apresentados trabalhos em cerâmica, cestaria, têxteis, biojoias, grafismos, esculturas, pinturas, fotografias indígenas, além de cafés, mel, chocolates, alimentos tradicionais e demais produtos da sociobiodiversidade.

“Construímos essa feira com muito cuidado, ouvindo os povos, acolhendo cada expositor e garantindo que fossem os próprios artistas contando suas histórias. Isso faz toda diferença, porque não vendemos apenas peças: compartilhamos memória, identidade e pertencimento”, destaca Priscila Tapajowara, da coordenação nacional da Mídia Indígena.

A curadoria foi conduzida pela Mídia Indígena em parceria com Marcelo Rosenbaum, em um processo voltado à valorização estética, política e econômica da produção indígena. A estrutura contou com cenografia própria e mobiliários em bambu produzidos especialmente para a ocasião, criando uma ambiência de encontro entre natureza, cidade e arte.

“A arte indígena carrega inteligência ancestral, sofisticação técnica e visão de futuro. Participar dessa construção coletiva é reconhecer que o Brasil precisa olhar com mais profundidade para os povos originários e para a potência criativa que existe nesses territórios”, afirma Rosenbaum.

Levar a feira para a maior metrópole do país teve significado simbólico e político. No parque Ibirapuera, milhares de pessoas puderam acessar diretamente a diversidade cultural e econômica dos povos originários. ,“Receber uma feira como essa em São Paulo tem um significado profundo. Essa cidade também é território indígena. Quando os povos originários ocupam esses espaços com arte, cultura e pensamento, a cidade se reconecta com sua própria história”, afirma Thiago Guarani.

Além da área expositiva e comercial, a programação contou com debates e painéis no espaço “Tecnologia e Ancestralidade”, integrado à arena da Bienal Brasileira de Arquitetura. Durante os quatro dias, lideranças, artistas, pensadores e produtores indígenas discutiram temas como economia da floresta, protagonismo das mulheres indígenas, futurismo indígena, arquitetura tradicional, sustentabilidade e novos caminhos para circulação da arte originária.

Realizada no contexto do Abril Indígena, mês marcado por mobilizações em defesa de direitos e territórios, a feira apresentou ao país uma narrativa necessária: falar de povos indígenas também é falar de economia, inovação e desenvolvimento sustentável. Por décadas, a sociedade brasileira reduziu o debate indígena apenas ao conflito e à resistência. A feira demonstrou que os territórios indígenas também produzem riqueza, criatividade, conhecimento e soluções para o futuro. “A Feira de Arte dos Povos Indígenas demonstra que demarcar territórios também é fortalecer economia, cultura e autonomia. Os povos indígenas não querem apenas sobreviver, querem viver com dignidade, produzir e ocupar todos os espaços do país com seus saberes”, afirma Sônia Guajajara, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas.

A Feira de Arte dos Povos Indígenas deixa um recado claro ao Brasil: quando há investimento, estrutura e respeito ao protagonismo indígena, os resultados aparecem. Os R$ 500 mil comercializados representam valor econômico concreto, mas também simbolizam algo ainda maior: valorização cultural, fortalecimento territorial, mudança de imaginário e abertura de novos caminhos para o país. Durante quatro dias, os povos indígenas mostraram à maior cidade do Brasil que seus territórios não produzem apenas resistência, como também produzem beleza, inteligência, renda e futuro.

FOTO: Daniel Kuikuru

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