Durante o Festival Raízes Ancestrais – Pela Cura da Terra, na UFMG, a cantora homenageada como Embaixadora pelo Clima e a deputada federal conversaram sobre o Norte de Minas, ancestralidade, cultura, pertencimento e os desafios de permanecer fiel às próprias raízes enquanto ocupam espaços de projeção nacional.
Por Hony Sobrinho | Mídia Indígena
O que significa atravessar o mundo sem abandonar o lugar de onde se veio?
A pergunta não aparece de forma explícita na conversa entre Marina Sena e Célia Xakriabá, mas atravessa cada lembrança, cada história e cada reflexão compartilhada pelas duas mulheres do Norte de Minas Gerais durante o Festival Raízes Ancestrais – Pela Cura da Terra, realizado em 27 de maio na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.
Promovido como um grande encontro cultural, político e simbólico, o festival reuniu lideranças indígenas, artistas, intelectuais, universidades, movimentos sociais, juventudes e representantes da sociedade civil em torno de debates sobre território, democracia, cultura, clima e futuro. Entre os momentos mais marcantes da programação esteve a homenagem concedida a Marina Sena, reconhecida como Embaixadora pelo Clima e agraciada com uma moção de aplausos da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados por sua contribuição à cultura brasileira e por projetar Minas Gerais nacionalmente, valorizando a liberdade estética e as expressões culturais populares.
Foi nesse contexto que Marina se encontrou com a deputada federal Célia Xakriabá, liderança indígena do povo Xakriabá e uma das principais vozes dos povos indígenas no Congresso Nacional. O resultado foi uma conversa que rapidamente deixou de ser uma entrevista convencional para se transformar em um encontro de memórias, afetos e reconhecimentos mútuos.
Embora tenham seguido trajetórias distintas, as duas compartilham uma origem comum. São mulheres do Norte de Minas. Cresceram em uma região marcada pelo encontro entre Cerrado e Caatinga, pela força do Rio São Francisco, pelas comunidades indígenas, quilombolas e geraizeiras, pelas festas populares, pelos quintais, pelos saberes transmitidos entre gerações e por uma relação com o território que vai muito além da geografia.
Logo no início da conversa, Célia relembra uma infância em que a natureza não era um tema de debate, mas parte da vida cotidiana. No território Xakriabá, a presença de uma onça podia alterar a rotina inteira de uma comunidade. Crianças deixavam de ir para a escola, famílias redobravam a atenção e os rastros do animal se tornavam assunto entre vizinhos e parentes.
Hoje, ao recordar essas histórias, a deputada observa que sua relação com a onça mudou. Se antes havia medo, hoje existe a consciência de que sua luta é para que esses animais continuem existindo.
A observação funciona como uma metáfora poderosa para os desafios contemporâneos. As ameaças já não estão apenas na mata. Estão também na destruição dos biomas, na pressão sobre os territórios tradicionais, na violência contra povos indígenas e na dificuldade de construir modelos de desenvolvimento que respeitem a diversidade da vida.
Ao longo do encontro, torna-se evidente que, para Marina e Célia, falar de território não significa apenas falar de terra. Significa falar de memória, cultura, pertencimento e identidade.
Quando Célia pergunta o que ainda existe de Taiobeiras dentro dela, Marina responde sem hesitar:
“O mundo é uma grande Taiobeiras para mim.”
A frase resume uma percepção recorrente em sua trajetória. Mesmo depois de percorrer o Brasil e o exterior, a cantora continua utilizando o Norte de Minas como referência para compreender novas paisagens, novas experiências e novos lugares.
Sua forma de cantar, sua estética, sua visão de mundo e até sua relação com a arte estão profundamente ligadas ao território onde cresceu.
“Minha personalidade, minha forma de cantar, minha visão de mundo, tudo tem a ver com o Norte de Minas”, afirma.
Essa conexão aparece de maneira ainda mais evidente quando Marina compartilha uma lembrança aparentemente simples. Durante uma visita a um museu rural, sentiu o cheiro de sacos de estopa cheios de arroz, feijão e farinha. Imediatamente foi transportada para a infância vivida na casa da avó.
“Eu comecei a chorar. Era exatamente o cheiro da dispensa da minha avó.”
O relato emociona Célia, que relaciona a memória afetiva ao próprio conceito de território. Para ela, território não é apenas um espaço físico delimitado em um mapa. É tudo aquilo que nos forma. É o conjunto de relações, histórias, saberes, cantos, ensinamentos e afetos que carregamos ao longo da vida.
“Eu aprendi a carregar o território dentro de mim”, afirma.

Essa ideia atravessa toda a conversa. Em diferentes momentos, as duas refletem sobre o que significa ocupar espaços de projeção nacional sem romper com suas origens. Ambas conhecem as pressões que frequentemente recaem sobre pessoas vindas do interior, de territórios tradicionais ou de contextos historicamente marginalizados.
Existe uma expectativa silenciosa de adaptação. De suavizar sotaques. De esconder referências. De abandonar partes da própria identidade para se adequar a determinados ambientes.
Marina fala sobre esse processo com honestidade.
“Quando eu me afasto da minha essência, eu fico menos inteira.”
A observação encontra eco na experiência de Célia, que relembra os inúmeros questionamentos que ouviu ao chegar à universidade.
“Você é indígena mesmo?”
Durante anos, precisou responder perguntas que revelavam uma visão limitada sobre os povos indígenas brasileiros. Uma visão que associa a identidade indígena a estereótipos e ignora a diversidade dos povos e territórios existentes no país.
Por isso, uma das reflexões mais importantes da conversa surge quando a deputada afirma:
“Ser indígena não é sobre parecer. É sobre pertencer.”
A frase sintetiza uma dimensão fundamental da experiência indígena contemporânea. Ao mesmo tempo em que reivindica o direito ao pertencimento, também desafia a ideia de que os povos indígenas estariam restritos ao passado ou isolados da sociedade.
Ao longo do diálogo, Célia chama atenção para outra invisibilidade histórica: a dificuldade que grande parte dos brasileiros ainda tem em reconhecer a presença indígena para além da Amazônia.
“O Cerrado também é indígena. A Caatinga também é indígena. O Norte de Minas também é indígena.”
A afirmação não busca apenas corrigir uma percepção equivocada. Ela ajuda a compreender a importância dos povos indígenas na preservação de biomas frequentemente esquecidos pelos grandes debates nacionais.
É também nesse contexto que surge uma das reflexões mais potentes da conversa.
“Uma vegetação monocultural mata. Uma sociedade monocultural mata. Uma voz monocultural mata.”
Ao estabelecer essa relação entre biodiversidade e diversidade cultural, Célia propõe uma leitura que ultrapassa os limites das questões ambientais. A monocultura não ameaça apenas os ecossistemas. Ela ameaça também os conhecimentos, as culturas, as formas de viver e as possibilidades de imaginar outros futuros.
A ideia dialoga diretamente com o espírito do Festival Raízes Ancestrais. Ao reunir diferentes vozes, saberes e experiências, o encontro buscou justamente afirmar que a diversidade é uma condição fundamental para a vida.
Outro tema que ocupa lugar central na conversa é a música.
Questionada sobre o papel do canto na tradição indígena, Célia apresenta uma reflexão que ajuda a compreender por que arte e memória estão tão profundamente conectadas.
“Você pode queimar uma casa. Pode destruir uma estrutura. Mas não consegue queimar um canto.”
Para ela, o canto é uma forma de permanência. Uma tecnologia ancestral de transmissão de conhecimento, memória e resistência.
“Um canto é eternidade.”

A frase ressoa de maneira especial diante da trajetória de Marina Sena. Em poucos anos, a cantora se consolidou como uma das vozes mais importantes da música brasileira contemporânea, levando para os palcos referências sonoras, estéticas e culturais profundamente conectadas ao interior de Minas Gerais.
Ao final do encontro, o que permanece não é apenas a celebração de duas trajetórias de sucesso.
O que permanece é o reconhecimento de uma origem compartilhada.
Uma conversa sobre o Norte de Minas que fala, na verdade, sobre o Brasil.
Sobre memória.
Sobre pertencimento.
Sobre identidade.
Sobre a capacidade de ocupar novos espaços sem abandonar aquilo que nos formou.
Em um tempo marcado pela velocidade, pela hiperconectividade e pelas transformações constantes, Marina Sena e Célia Xakriabá lembram que algumas coisas continuam fundamentais: o território, os afetos, os saberes ancestrais e a certeza de que aquilo que nos faz brotar também é aquilo que nos sustenta.