Pesquisa divulgada na segunda-feira, 11, analisa impactos sociais, ambientais e econômicos da mineração ilegal após ações federais no sudoeste do Pará
Mesmo após operações federais para retirada de invasores da Terra Indígena Munduruku, no sudoeste do Pará, o garimpo ilegal continua ativo e reorganizado no território. É o que aponta o estudo “O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão: Reconfigurações Territoriais e Conflitos na Terra Indígena Munduruku”, divulgado na segunda-feira (11) por pesquisadores do Instituto Mãe Crioula (IMC) e da Universidade do Estado do Pará (Uepa).
A pesquisa analisa as transformações socioambientais e econômicas ocorridas em 2025, após as ações de desintrusão promovidas por órgãos federais na Terra Indígena Munduruku, localizada entre os municípios de Jacareacanga e Itaituba. Segundo os pesquisadores, embora as operações tenham representado um avanço na proteção territorial, elas não conseguiram desmontar a estrutura econômica que sustenta o garimpo ilegal na região.
O estudo foi coordenado pelo geógrafo Aiala Couto e contou também com participação da pesquisadora Carolina Furtado. Os autores afirmam que a atividade ilegal passou por um processo de reconfiguração territorial, migrando de grandes estruturas para “microgarimpos”, mantendo impactos ambientais e conflitos no território Munduruku.
De acordo com o relatório, o garimpo segue articulado a uma rede regional que envolve aeroportos clandestinos, postos de abastecimento e rotas logísticas ligadas também ao crime organizado. Municípios como Itaituba, Trairão, Altamira e Novo Progresso aparecem como pontos estratégicos dessa dinâmica econômica baseada na exploração ilegal de ouro.
A pesquisa também chama atenção para o que os autores classificam como “mínero-dependência”. Segundo o estudo, parte significativa da economia de Jacareacanga passou a depender diretamente da atividade garimpeira ilegal, movimentando hotéis, restaurantes, postos de combustíveis e o comércio local. Com a retirada de parte dos garimpeiros, moradores relataram queda brusca na circulação econômica da cidade.
Os pesquisadores apontam ainda o aumento das vulnerabilidades sociais no município. Dados reunidos pelo estudo mostram crescimento do número de famílias inscritas no Cadastro Único, que chegou a 19.353 registros em 2026 em Jacareacanga, cidade com cerca de 24 mil habitantes, metade deles indígenas.
Além dos impactos econômicos, o relatório destaca danos ambientais provocados pela mineração ilegal, como assoreamento de rios, alteração dos cursos d’água e contaminação ambiental. Os efeitos atingem diretamente o modo de vida das comunidades indígenas que dependem dos rios para alimentação, transporte e atividades cotidianas.
O estudo recomenda a presença contínua do Estado na região, com fiscalização permanente, combate às cadeias econômicas do garimpo e construção de alternativas sustentáveis para as comunidades indígenas e municípios afetados. Os pesquisadores também defendem maior protagonismo dos povos Munduruku na formulação dessas políticas públicas.