Estilista do povo Waíkahna assina peças usadas pela cantora em “Nanã” e “Choka Choka” e vê na parceria uma forma de fortalecer a presença indígena na cultura contemporânea
A Anitta, 33, incorporou peças da Sioduhi Studio, marca de moda indígena, aos materiais de divulgação de seu novo projeto musical, o álbum Equilibrium (2026). Nos conteúdos já lançados nas plataformas digitais, a cantora aparece com criações do estilista Sioduhi, 30, do povo Waíkahna (Piratapuya), no visualizer de “Nanã” e no clipe de “Choka Choka”, música em parceria com Shakira.
No vídoe clipe da musica Nanã, cancão em parceira com KING Saints e Rincon Sapiência, a cantora veste a saia assimétrica Jirau de Peixes e no segundo surge com uma saia de tucum desenvolvida em parceria com a marca Ínaru Éyawa. As duas peças partem de referências do Alto Rio Negro e ajudam a construir a identidade visual do trabalho, que combina música e imagem em sua circulação digital.

Em entrevista à mídia indígena, o estilista destaca o significado da colaboração. “Uma felicidade, mais ainda de uma pessoa que admiro tanto pela resiliência e estratégia na sua carreira. E fora a questão dela ser uma das maiores apoiadoras da causa indígena, é necessário ter aliados como ela nessa luta”, canta.

Sioduhi conta que o contato com a equipe da artista começou a partir do interesse em peças já existentes no acervo da marca. A escolha recaiu sobre a coleção “Ahkó-Yakó: O Legado da Gente Estrela”, apresentada na Casa de Criadores, principal evento dedicado à moda autoral brasileira e também lançador de novos talentos. Os looks escolhidos passou a integrar diferentes momentos da divulgação. Antes disso, a Sioduhi Studio já vinha construindo um percurso próprio, vestindo nomes como Isabelle Nogueira, Marciele Albuquerque, Zaynara, Ailton Krenak, Kaê Guajajara e Zahy Tentehar. A circulação dessas peças acompanha um movimento mais amplo de presença indígena em diferentes espaços da cultura.
Surgimento da marca
A marca nasceu em abril de 2020, em um momento de mudança na vida do estilista. Ele deixava o trabalho em São Paulo, onde estudava modelagem, e enfrentava o luto pela perda de um tio. Na mesma semana, começava a pandemia. “A Sioduhi Studio nasce em abril de 2020, entre ruptura e recomeço. Naquele momento, deixo meu trabalho em São Paulo enquanto ainda estudava modelagem na ETEC Tiquatira. Ao mesmo tempo, atravessava o luto pela perda de um tio do povo Waíkahna (Piratapuya) e foi nesse atravessamento que senti a urgência de falar sobre memória através da moda. Na mesma semana, o mundo entra em quarentena. Em meio à incerteza, escolho continuar”, conta.

Ele enfatiza que desde o início, a marca se organiza a partir de referências do Alto Rio Negro, não como inspiração distante, mas como experiência vivida. As histórias de família, o cotidiano às margens do rio e os materiais do território atravessam as peças.“Do corpo, da escuta e do território. Das histórias ouvidas no colo da minha mãe, das narrativas familiares, da vivência às margens do Rio Uaupés. Isso se traduz em matéria. Cada peça carrega memória como estrutura.”
Sioduhi define o trabalho como “moda indígena futurista”, uma forma de pensar o tempo sem separar passado, presente e futuro. “É projetar futuro sem abrir mão da memória. Em um país que ainda apaga suas origens, essa moda propõe reconexão: com o território, com o tempo e com a responsabilidade coletiva.” Nas peças, essa ideia aparece no encontro entre técnicas tradicionais e recursos contemporâneos, como a impressão 3D, sem romper com o sentido original dos elementos.
“A Sioduhi Studio é uma marca indígena futurista que parte das cosmologias do Alto Rio Negro para imaginar outros futuros possíveis. Mais do que estética, é posicionamento”, adianta. Agora, a marca entra em um novo momento, com planos de ampliar sua presença e investir em processos próprios de produção. “A Sioduhi Studio entra em um novo ciclo: expansão e presença no cotidiano. O futuro não é abstrato, está sendo construído com matéria, memória e continuidade.”