Na série de reportagens “Mães da Resistência”, a liderança Patrícia Krin Si, que é mãe, avó e uma das principais vozes do movimento indígena baiano relaciona maternidade, luta política e defesa do território.
A trajetória de Patrícia Krin Si é atravessada pela maternidade, liderança e resistência. Mãe de dois filhos, avó de duas crianças e uma das principais vozes do movimento indígena na Bahia, ela vive no território Pankararé, no município de Glória, no norte do estado, a cerca de 430 quilômetros de Salvador, na região do Raso da Catarina, em pleno semiárido baiano.
É desse território cercado pela Caatinga, por rios, ervas medicinais e tradições ancestrais que Patrícia construiu sua atuação política e comunitária ao longo de mais de duas décadas. A liderança indígena integra a série de reportagens “Mães da Resistência”, que reúne relatos de mulheres indígenas cujas trajetórias de maternidade caminham junto à defesa do território, da cultura e da vida coletiva, destacando também os desafios da maternidade e da luta indígena.
Patrícia foi mãe cedo. Teve o primeiro filho, Alexandre Atikum, aos 21 anos. Depois, aos 26, nasceu Mateus Pankararé. Hoje, além dos filhos, também acompanha com alegria o crescimento dos netos, Benjamim e Selena, em meio às tradições do povo Pankararé.“Ser mãe é amar profundamente a geração futura. Mas ser avó é amar duas vezes”, afirma.

Aos 23 anos, ela se tornou uma das principais vozes do Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoíba). Na época, o filho tinha apenas 2 anos, e Patrícia precisou dividir o tempo entre a família e viagens para reuniões, articulações políticas e representações institucionais em Salvador, Brasília e outros estados.“Sempre fui uma mãe muito amorosa, mas reconheço que fui ausente em muitos momentos por causa das viagens e da representatividade que assumi não apenas pelos meus filhos, mas pelo coletivo”, diz.
Ela lembra que perdeu aniversários, atividades escolares e momentos importantes da infância dos filhos. Em vários períodos, precisou deixar as crianças sob os cuidados do marido e da mãe para conseguir estudar e ocupar espaços de liderança.“Não é fácil para uma mulher liderança viver assim. Isso traz impactos familiares e muitas ausências”, afirma.
Segundo ela, a relação entre maternidade e luta política aparece como um dos principais eixos da sua trajetória. Para Patrícia, defender o território é também garantir futuro para os filhos e netos.“Temos que lutar pela demarcação, pelas políticas públicas e pelo futuro que queremos deixar para os nossos filhos e netos”, afirma.
Enquanto fala sobre os netos, Patrícia mistura orgulho e memória. Conta que Benjamim já participa dos costumes tradicionais do território e que Selena “carrega consigo toda a essência da Jurema”. A dimensão espiritual atravessa a forma como ela compreende maternidade, território e futuro.
Trajetória
Atualmente, Patrícia ocupa diferentes funções ligadas à educação, à pesquisa e ao movimento indígena. É mestre em Estudos Africanos, Povos Indígenas e Culturas Negras pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), pedagoga e graduada em Licenciatura Intercultural em Educação Escolar Indígena.Também atua como pesquisadora do Centro de Pesquisas em Etnicidades, Movimentos Sociais e Educação OpARÁ/Uneb e da Ação Saberes Indígenas na Escola, ligada ao Ministério da Educação.
No território Pankararé, é gestora do Colégio Estadual Indígena Ângelo Pereira Xavier e representante legal da Organização das Mulheres Indígenas Pankararé (Omipa). Patrícia ainda integra o Conselho Estadual dos Direitos dos Povos Indígenas da Bahia (Copiba) e ocupa a vice-coordenação do Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoíba).Ela foi a primeira mulher a assumir a coordenação-geral do movimento indígena baiano, espaço historicamente ocupado por homens. Segundo Patrícia, ocupar esse lugar significou também abrir caminhos para outras mulheres indígenas.“Hoje vemos mulheres falando e homens escutando. Há alguns anos isso não acontecia”, diz.
Ao lembrar o início da trajetória, Patrícia conta que precisou conquistar espaço dentro do próprio movimento indígena organizado. Ainda jovem, passou a representar o povo Pankararé em reuniões e encontros políticos majoritariamente masculinos.“Comecei minha trajetória muito cedo, mas sempre fui respeitada pela minha postura e pela forma de enfrentar os desafios”, afirma.
Além da atuação institucional, Patrícia também mantém forte ligação com os conhecimentos tradicionais do território. Em suas falas, ela costuma relacionar a luta política àquilo que chama de “ciência ancestral”: os saberes ligados ao maracá, às ervas medicinais, às rezadeiras, benzedeiras e à relação espiritual com a terra.“Não é qualquer ciência. É a ciência do maracá, do croá, dos encantados, do meio ambiente”, afirma.
No sertão da Bahia, a maternidade indígena também se relaciona diretamente com a defesa ambiental. Patrícia afirma que o território precisa ser preservado para garantir a continuidade da vida das futuras gerações.“O Brasil precisa compreender que as mães indígenas também são mães brasileiras. Precisamos ver nossos filhos crescerem em seus territórios, livres de violência e ameaças”, diz.
Para ela, a demarcação dos territórios indígenas segue sendo uma das principais demandas das mulheres indígenas no país. Patrícia defende que políticas públicas voltadas para mulheres indígenas alcançam toda a coletividade.“Quando chega um projeto para mulheres indígenas, ele não alcança apenas as mulheres. Alcança toda a família e todo o território”, afirma.
Ao longo da entrevista, Patrícia volta diversas vezes à ideia de continuidade. Diz que o trabalho desenvolvido hoje é uma forma de preparar filhos, netos e jovens lideranças para manter viva a luta indígena nas próximas gerações.“Preciso formar meus filhos e netos para seguirem defendendo a terra e o direito de ser indígena”, afirma.No território Pankararé, ela tenta conciliar as demandas do movimento indígena com a presença junto aos netos, experiência que, segundo ela, vive agora de forma diferente daquela que conseguiu ter com os filhos.“Hoje consigo estar mais presente para os meus netos do que consegui para os meus filhos”, conclui.


