Relatos incluem ameaças de envenenamento da água, disparos contra acampamentos, atropelamentos e intimidações contra indígenas.
Por Luana Tarairiú
Após o segundo turno das eleições, povos indígenas de diferentes localidades, especialmente no Mato Grosso do Sul, relataram ameaças e agressões. De áudios sobre possíveis envenenamentos de água a atropelamentos, os casos de violência foram denunciados em meio ao fortalecimento do bolsonarismo e à hostilidade contra os povos indígenas.
Ao Mídia Indígena, Valdenice, indígena do povo Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, relatou ameaças verbais, intimidações com armas de fogo e atropelamentos de indígenas.
“Desde domingo, nós temos sofrido todos os tipos de ameaça. Ameaça de envenenamento de água, das nossas caixas d’água. Ameaças de atropelamento. Alguns Guarani Kaiowá foram atropelados com carro, moto, caminhonete. Não param para socorrer. Ameaças de arma de fogo mesmo, passam atirando em cima dos acampamentos. É isso que nós estamos passando”, contou.
Segundo Valdenice, o sobrinho dela perdeu o emprego após fazer campanha para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Fez campanha para o presidente Lula. Aí, na segunda-feira, dia 26, já foi demitido”, relatou.
Entre as situações que mais preocupam os indígenas, estão as ameaças de envenenamento da água consumida pelas famílias. Valdenice afirma que o medo tem afetado as comunidades.
“Várias situações assim, mas o mais pesado para a gente agora, no momento, é a ameaça de envenenamento das nossas águas”, disse.
Servidor municipal é afastado após ameaça em áudio
O caso de maior repercussão foi registrado em Tacuru, no sul de Mato Grosso do Sul. Áudios que circularam em grupos de WhatsApp contêm declarações ofensivas contra indígenas e uma ameaça de envenenar a água consumida pelas comunidades.
Em um dos trechos divulgados, um homem afirma que seria necessário colocar veneno na água para matar indígenas. As declarações foram denunciadas por lideranças como uma ameaça aos moradores da Aldeia Sassoró.
Na quarta-feira (28), a Prefeitura de Tacuru confirmou que o autor das declarações era um servidor municipal e informou que ele seria afastado temporariamente das funções enquanto o caso fosse apurado por meio de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
O prefeito Rogério Torquetti (PSDB) afirmou que o funcionário trabalha na área de infraestrutura e não atua diretamente no abastecimento de água. O gestor também declarou que as providências administrativas seriam adotadas para apurar o episódio.
O cacique Ivan Montiel, liderança da Aldeia Sassoró e vereador do município, condenou as declarações e ressaltou, por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, que vai buscar a responsabilização dos autores dos ataques.
“Eu gostaria de deixar aqui na condição de cacique e vereador da aldeia Sassoró que não vamos aceitar este tipo de preconceito contra nossa comunidade, ameaçando colocar veneno em água”, afirmou.
Povo Terena denuncia racismo e intimidação durante eleições
Além do caso de Tacuru, indígenas do povo Terena denunciaram ameaças, intimidações e manifestações racistas durante o segundo turno das eleições presidenciais.
Em reportagem publicada na terça-feira (27), a CNN Brasil informou que a Apib divulgou relatos de indígenas que teriam sido impedidos de votar em escolas localizadas nas aldeias. As denúncias também incluem o uso de expressões pejorativas, como “bugres”, para se referir aos povos originários.
Outro áudio divulgado pela articulação indígena registra declarações contrárias ao direito de voto dos indígenas e defende restrições ao acesso dessas populações à cidade e a serviços essenciais, como água e energia elétrica.
Governo federal aciona órgãos de investigação
Na terça-feira (27), a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL) informou que solicitou a investigação de uma suspeita de envenenamento da água consumida por indígenas Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul.
Segundo a Agência Basil, a denúncia foi encaminhada aos ministérios da Justiça e Segurança Pública e dos Povos Indígenas, ao Ministério Público Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A parlamentar chamou atenção para as dificuldades de acesso à água potável enfrentadas por comunidades Guarani Kaiowá, que dependem, em alguns locais, do abastecimento por caminhões-pipa.
Em nota conjunta, os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Igualdade Racial informaram que atuam para apurar denúncias de violência contra comunidades indígenas, quilombolas e povos de terreiro após o segundo turno.
Os órgãos informaram que estão em diálogo permanente, por meio de uma força-tarefa, para que os casos sejam investigados de forma célere e os responsáveis identificados e responsabilizados por possíveis crimes.
“É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência para reprimir e intimidar opiniões diferentes, colocando em risco a vida das pessoas. Vivemos em um país democrático em que as diferentes visões de mundo devem ser respeitadas e coexistir de forma pacífica e livre”, diz o texto publicado pelos ministérios.
Antes do segundo turno
As ameaças contra povos indígenas também foram registradas antes da votação de 25 de outubro. No Pará, indígenas do povo Parakanã, da Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu, receberam áudios com ameaças de invasão do território caso Flávio Bolsonaro (PL) vencesse as eleições presidenciais de 2026.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, oito mensagens enviadas por WhatsApp mencionavam uma possível ocupação da área por fazendeiros interessados em instalar propriedades rurais. A data citada nos áudios era justamente 25 de outubro, dia do segundo turno.
Homologada em 2007, a Terra Indígena Apyterewa abriga mais de mil indígenas e enfrenta um histórico de invasões, desmatamento, conflitos fundiários e violência. Durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), a pressão sobre o território se intensificou, com a instalação de uma ocupação ilegal conhecida como Vila Renascer.
Diante das ameaças, o Ministério dos Povos Indígenas informou que a segurança na região seria reforçada. Entre julho e agosto, uma operação conjunta do Ibama, da Funai e da Força Nacional retirou gado ilegal e combateu crimes ambientais, dando continuidade ao processo de desintrusão iniciado em 2023.
O episódio ocorreu em um contexto de disputa política sobre a política ambiental e os direitos territoriais dos povos indígenas. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, propostas associadas a um eventual governo de Flávio Bolsonaro incluíam mudanças nas atribuições de órgãos ambientais e indigenistas, flexibilização do licenciamento ambiental e exploração de gás por fraturamento hidráulico, conhecido como fracking.
O senador também já defendeu o fim do que chama de “amarras ambientais” e declarou ser contrário à demarcação de novas terras indígenas.
Os relatos registrados antes e depois do segundo turno mostram que as preocupações com a segurança dos povos indígenas envolvem tanto a integridade física das pessoas quanto a proteção dos territórios. No Mato Grosso do Sul, as denúncias incluem ameaças de envenenamento da água, disparos contra acampamentos e atropelamentos. No Pará, indígenas receberam ameaças de invasão de suas terras.