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ENTREVISTA: “O Poranga Marandúa nasce para combater a falta de diversidade e o racismo na grande imprensa”, diz Luan Tremembé, coordenador-geral da ABRINJOR.

Coordenador da articulação detalha a criação do manual de redação indígena, que terá edições em português, inglês, espanhol e línguas originárias. 

Na última segunda-feira (10), a Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor) lançou, no Congresso Nacional, em Brasília, o livro “Poranga Marandúa – Manual de Redação do Jornalismo Indígena”. A publicação, cujo título em Nheengatu significa “notícia boa” , é dividida em 5 capítulos e conta com 144 páginas, articulando a autoria de dezenas de profissionais e comunicadores de diferentes biomas do Brasil. 

Elaborada ao longo de um ano a partir das deliberações do I Encontro de Indígenas Jornalistas do Brasil, a obra traz diretrizes técnicas, condutas éticas, verbetes e orientações de cobertura direcionadas a redações e universidades. O lançamento físico ocorreu em português, e o livro também terá edições em inglês e espanhol, com previsão de futuras traduções para línguas indígenas.  Em entrevista, Luan Tremembé, coordenador-geral da Abrinjor, fala sobre o protagonismo indígena na imprensa, a luta contra a falta de diversidade nas redações e os desafios da formação profissional no país. 

A Abrinjor hoje reúne 65 integrantes de 45 povos, sendo 37 jornalistas graduados e 28 estudantes. A rede é formada por 42 mulheres e 23 homens e está presente nos seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.Confira abaixo a entrevista: 

Qual a importância do lançamento do manual no Congresso Nacional?

Ocupar o Congresso Nacional para lançar o primeiro manual de redação do jornalismo indígena do Brasil é um marco histórico. Mudamos a história ao assumir o protagonismo da nossa própria narrativa. Em vez de deixarmos que falem por nós, mostramos aos colegas jornalistas como queremos ser ouvidos e como devem chegar aos nossos territórios. Foi uma articulação viabilizada também com o apoio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Como surgiu a Abrinjor e qual é o seu papel atual?

A Abrinjor nasceu em 2022 como um grupo de acolhimento no WhatsApp, pois vivíamos jornadas muito solitárias. Frequentemente, éramos os únicos indígenas no curso de jornalismo ou no território. Ao nos organizarmos, percebemos nossa força. Hoje, atuamos no apoio aos profissionais e em causas estruturantes, como a proposta de inclusão do curso de jornalismo na futura Universidade Federal Indígena. Éramos pequenas nascentes de água; ao nos juntarmos, formamos um grande rio.

Como você falou anteriormente, Luan, a Abrinjor nasceu de um grupo de WhatsApp, lá em 2022. E o que você destaca de mudanças que aconteceram de lá para cá? 

Acho que a principal mudança que a gente percebe de lá para cá é que nós temos sido vistos de outra forma. Não é nem que as pessoas, às vezes, queiram nos enxergar, mas é que a gente está ali gritando: “Ô, nós estamos aqui!”. Antes, fazíamos um esforço enorme para sermos ouvidos. Hoje, passamos a ser convidados para debates e consultados para indicações profissionais. A sociedade e o mercado começam a reconhecer a existência e a capacidade técnica de profissionais indígenas no jornalismo. 

Uma pesquisa da UERJ com matérias dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão apontou que 84% dos textos assinados são de homens brancos acima de 40 anos. Como você avalia esse dado?

É um número preocupante, mas esperado. O manual surge justamente para combater essa disparidade. Ele oferece instruções técnicas básicas e necessárias, pois os grandes veículos ainda reproduzem uma imagem folclórica e estigmatizada dos nossos povos. Queremos que este manual seja adotado nas redações e estudado nas universidades.Vale ressaltar que a nossa rede é majoritariamente composta por mulheres. Dos mais de 70 membros, cerca de 45 são mulheres. Elas estão na linha de frente e enfrentam duplas jornadas, o que exige que o mercado e as oportunidades respeitem as realidades de tempo e contexto de vida dessas profissionais. 

E quais são os principais desafios para a inclusão real de jornalistas indígenas no mercado?

O principal desafio é ver empresas buscando profissionais indígenas apenas para cumprir cotas de imagem, sem ouvir nossas vivências ou permitir que façamos a diferença na cobertura. Além disso, há barreiras de acesso e permanência na universidade. No movimento indígena, muitos se formam primeiro na prática da comunicação comunitária e territorial por urgência de defesa da vida, para só depois buscarem o diploma universitário.

Você acredita em neutralidade no jornalismo?

Não acredito em neutralidade. O jornalismo é construído com vivências, pontos de vista e contexto social. Não existe jornalismo totalmente imparcial, especialmente quando se vivencia a realidade de um movimento social.

 Quais são os planos de distribuição do manual para os territórios indígenas?

 Além da versão digital lançada no Congresso da Abrinjor e da versão física em português, o manual já tem edições em inglês e espanhol. A etapa seguinte é traduzi-lo para línguas indígenas dos povos que compõem a nossa rede, garantindo o acesso às escolas e comunidades no chão do território. O livro resgata a própria história do movimento e da comunicação indígena no Brasil.

O que este lançamento representa para você e para a entidade?

O Poranga Marandúa é a realização de um sonho coletivo. Ele representa a nossa Bíblia técnica e ética. É o início de um novo ciclo, onde nos apresentamos organizados, com dados e diretrizes, para dialogar em qualquer instância.

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