Publicação lançada nesta quinta-feira (13) reúne dados sobre violência contra a pessoa, contra o patrimônio e por omissão do poder público e aponta agravamento das violações em meio à pressão sobre as terras indígenas
A violência contra os povos indígenas aumentou no Brasil em 2025, com crescimento de conflitos territoriais, assassinatos, suicídios e mortes de crianças, segundo relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lançado nesta quinta-feira (13), em Brasília. O levantamento, que reúne dados de todo o país, aponta 169 conflitos por direitos territoriais, 210 casos de invasão e danos a terras indígenas, 258 assassinatos e 215 suicídios, além de 1.024 mortes de crianças indígenas de até 4 anos.
Para o Cimi, os números refletem a persistência das invasões, a demora na demarcação e falhas do poder público na proteção dos povos e de seus territórios. Os 169 conflitos por direitos territoriais registrados em 2025 ocorreram em 23 estados e atingiram 143 Terras Indígenas (TIs). Segundo o relatório, dois terços desses territórios ainda tinham pendências no processo de regularização ou não contavam com providências do Estado para a demarcação. O Cimi aponta que a demora na garantia da posse indígena ocorre enquanto grandes projetos de infraestrutura e atividades de exploração econômica avançam sobre essas áreas.
Também foram registrados 210 casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos naturais e outros danos ao patrimônio indígena. As ocorrências atingiram pelo menos 151 TIs em 20 estados. Desse total, 88 territórios, o equivalente a 58,3%, já eram regularizados.
Amazonas, Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Rondônia concentraram os maiores números de invasões e danos ao patrimônio. O relatório destaca que, em algumas áreas, invasores retornaram pouco tempo depois de operações de desintrusão realizadas pelo governo federal. O Cimi cita como exemplos as TIs Sararé, em Mato Grosso, Apyterewa, no Pará, e Karipuna, em Rondônia. Além do garimpo e da mineração, foram registrados casos envolvendo madeireiros, grileiros, caçadores e pescadores. Pelo menos 46 territórios tiveram danos em cursos d’água relacionados à drenagem de rios para irrigação de monocultivos, ao garimpo e à contaminação por agrotóxicos.
A violência contra a pessoa também aumentou. Entre os casos registrados estão assassinatos, tentativas de assassinato, ameaças de morte, lesões corporais, racismo e discriminação étnico-cultural e violência sexual. Entre os assassinatos citados pelo Cimi está o do Pataxó Vitor Braz, morto em março de 2025 na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, no extremo sul da Bahia, em meio à luta do povo pela demarcação do território. Em novembro, o Guarani Kaiowá Vicente Fernandes também foi assassinado no Mato Grosso do Sul, em contexto de conflito territorial.
Outro dado destacado pelo relatório são os 215 suicídios de indígenas registrados em 2025. Amazonas teve o maior número de casos, com 77, seguido por Mato Grosso do Sul, com 42, e Roraima, com 37. A maioria das vítimas era do sexo masculino, que correspondeu a 70,2% dos casos. Jovens também aparecem entre os principais grupos atingidos: 34,4% dos suicídios ocorreram entre indígenas de até 19 anos e 40,9% entre pessoas de 20 a 29 anos.
Na infância, o Cimi registrou 1.024 mortes de crianças indígenas de até 4 anos em 2025. O relatório aponta que 57% dessas mortes foram provocadas por causas consideradas evitáveis, como doenças infecciosas intestinais, gripe e pneumonia e desnutrição. A publicação também registra casos de omissão do poder público nas áreas de saúde e educação. Foram contabilizados 58 casos de desassistência geral, além de ocorrências relacionadas à falta de atendimento e estrutura nos serviços públicos. Em 2025, 62 indígenas morreram em decorrência de desassistência na área da saúde, segundo dados sistematizados pelo Cimi.
Para o Cimi, o cenário de 2025 está relacionado à insegurança territorial enfrentada pelos povos indígenas e à continuidade de medidas políticas e decisões judiciais que afetam seus direitos. O relatório cita a vigência da Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, além da demora dos poderes públicos na regularização e proteção dos territórios indígenas. O relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025 é produzido anualmente pelo Cimi e reúne 19 categorias de análise sobre violações cometidas contra povos indígenas. As informações são levantadas pelas equipes regionais da entidade a partir de relatos de comunidades, dados de órgãos públicos e informações divulgadas pela imprensa.