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Pesquisadora Francy Baniwa é a primeira professora titular indígena da USP, uma das maiores universidades da América Latina

Antropóloga, escritora e fotógrafa, Francy chega à Universidade de São Paulo levando para a sala de aula conhecimentos aprendidos no território e uma trajetória construída entre a comunidade e a antropologia.

Francy Baniwa, 40, mulher indígena do povo Baniwa, é a primeira professora indígena da Universidade de São Paulo (USP). A antropóloga, escritora, fotógrafa, pesquisadora e dona de roça (Como ela gosta de ressaltar) passa a integrar a universidade neste ano, levando para uma das principais instituições de ensino superior do país uma trajetória construída entre o território Baniwa, no Alto Rio Negro (AM), a pesquisa acadêmica e o trabalho com museus e acervos indígenas.

A pesquisadora chega à USP depois de atravessar um caminho que começou na comunidade de Assunção, no Baixo Rio Içana, em São Gabriel da Cachoeira (AM), e passou pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e por instituições culturais no Brasil e no exterior. A chegada dela tem um significado que vai além do currículo. Pela primeira vez, uma mulher indígena ocupa o lugar de professora dentro da USP. Para Francy, estar ali significa abrir uma porta que, durante muito tempo, permaneceu distante dos povos indígena, e entrar sem deixar para trás o lugar de onde veio.

“Eu acho que o primeiro momento é um grande desafio, porque é uma instituição, um espaço que não foi pensado por nós e muito menos está preparado para dialogar com o nosso conhecimento, que são os territórios. Então, a princípio, estou chegando muito para conhecer o que é o MAE, o que é esse Museu de Arqueologia e Etnologia. Acho que estou chegando para entender ainda como será a minha participação nesse departamento, quais são os eixos de pesquisa e de atuação dos professores”, conta.

A história de Francy ajuda a entender por que essa chegada não pode ser lida apenas como uma conquista profissional. Graduada em Sociologia pela UFAM, ela fez mestrado e doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ. No mestrado, pesquisou a mitologia Baniwa e suas transformações. No doutorado, concluído em 2025, voltou o olhar para as mulheres Baniwa e os conhecimentos relacionados às roças, às plantas, aos corpos e ao território. A pesquisa acadêmica nasceu, portanto, de um lugar que ela conhece desde criança. Ela é do clã Waliperedakeenai e nasceu na comunidade de Assunção, no Baixo Rio Içana, dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro. Sua relação com a roça não é apenas tema de pesquisa: ela é neta, filha e dona de roça.

Foi essa experiência que atravessou sua tese de doutorado, intitulada Donas de roça: uma etnografia em casa sobre saberes, plantas e mulheres Baniwa. Ao olhar para as mulheres de sua comunidade, Francy encontrou uma forma de reconhecer como ciência conhecimentos que muitas vezes ficam fora das universidades.“Eu trago na tese de doutorado todo esse protagonismo feminino, toda essa potência que elas têm como guardiãs, detentoras desse conhecimento que é a roça, que é o território, que é o parto, que é ser mãe, que é ser mulher indígena no território Baniwa. Eu sou neta de dona de roça, sou filha de dona de roça e sou dona de roça”, afirma.

A roça, para Francy, é mais do que um lugar onde se planta e colhe. É também um espaço de transmissão de conhecimentos, de convivência, de memória e de formação. É onde mulheres aprendem e ensinam sobre plantas, alimentação, corpo, território e relações comunitárias. Essa compreensão acompanha a pesquisadora agora dentro da universidade. Em vez de pensar que a formação começa quando um indígena chega ao ensino superior, ela defende justamente o contrário: é preciso reconhecer que o território já é um espaço de aprendizagem.“Eu vou tentando costurar esses projetos, mostrando para a juventude que o nosso território é a nossa primeira universidade. Eles precisam olhar para o território e se orgulhar por serem filhos daquele território, porque o conhecimento e a ciência estão centralizados nos nossos pais, nos nossos avós, nos nossos tios e nas nossas tias”, diz.

A ideia é também uma espécie de conselho para os jovens que, como ela, precisam deixar suas comunidades para estudar. “Eu quero que a juventude entenda que o nosso pilar para a transformação do mundo é o nosso território. É olhar para o nosso território com muito, muito orgulho para depois sair para a universidade e dizer: ‘Eu estou preparada para encarar essa universidade a partir das minhas narrativas, do meu conhecimento’”, completa.

Da aldeia para o mundo

Antes de chegar à USP, Francy já havia construído uma trajetória que atravessa diferentes espaços de produção e preservação de conhecimento. É autora de Umbigo do mundo: Mitologia, Ritual e Memória Baniwa Waliperedakeenai, publicado pela Dantes em 2023, obra que a tornou a primeira mulher indígena brasileira a publicar um livro na área de antropologia.

O livro nasceu de sua pesquisa de mestrado, defendida em 2019. O trabalho partiu das narrativas Baniwa para pensar a própria produção de conhecimento de seu povo. A experiência ajudou a consolidar uma trajetória em que a pesquisadora não se coloca apenas como alguém que observa ou interpreta uma cultura, mas como parte do mundo que pesquisa.

Essa posição também aparece em sua atuação na Escola Viva Baniwa: Wanheke Ipanana wha Walimanai, Casa de Conhecimento da Nova Geração, que coordena na comunidade de Assunção, no rio Içana. Ali, os mestres indígenas têm papel central na transmissão dos conhecimentos para os mais jovens.

A lógica é simples, mas rompe com uma ideia muito presente na academia: a de que o conhecimento só ganha legitimidade quando passa por uma instituição.“Me orgulho muito de nunca ter deixado o território, mas, pelo contrário, de ter sido essa ponte de mediação entre mundos, onde a minha comunidade caminha comigo. Hoje, a gente está podendo reconhecer os conhecedores, dizer que eles são os nossos doutores, reconhecer os nossos mais velhos como guardiões do conhecimento e da transmissão do conhecimento”, afirma.

É essa ponte que Francy pretende levar para a USP. Para ela, a universidade não precisa substituir os conhecimentos indígenas, mas aprender a conversar com eles.“Eu acho que a gente precisa tanto da ciência ocidental quanto da ciência indígena. Então, eu sempre falo assim: a gente sempre foi grandes doutores e mestres, porque domina um conhecimento indígena que só a gente é capaz de entender, o nosso mundo. Então, acredito que a gente está preparado para estar nesses espaços”, diz.

A primeira atividade que ela pretende desenvolver na universidade segue justamente esse caminho. No próximo ano, Francy deverá participar da construção de uma disciplina voltada a autores indígenas para estudantes de graduação. A proposta é apresentar uma produção intelectual que existe nos territórios e que, aos poucos, vem conquistando espaço na academia.“No ano que vem, a gente já começa dando uma disciplina recomendada para os alunos de graduação. De imediato, vai ser ‘Leituras de autores indígenas’. Já é uma disciplina que está sendo construída. Então, vamos ter, no ano que vem, essa disciplina, que é pensar e apresentar para o mundo da academia quem são os autores indígenas. Acho que temos muitos autores produzindo ciência”, conta.

E Francy quer mostrar a diversidade dessa produção.“Eu acho que não só da Antropologia, mas de diversas áreas fazendo parte de uma disciplina, mostrando essa diversidade de produção de saberes a partir dos territórios, das narrativas, de como a gente consegue costurar essas produções de conhecimento a partir da Antropologia”, afirma.

A trajetória de Francy também passa pelos museus. No pós-doutorado, sua pesquisa se voltou para acervos, objetos indígenas e processos de requalificação. Entre 2019, 2023 e 2024, ela coordenou o projeto Vida e Arte das Mulheres Baniwa, uma visão de dentro para fora, subprojeto de uma cooperação técnica internacional entre a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o Museu do Índio.

Também trabalhou em projetos da UNESCO no Museu Nacional dos Povos Indígenas, no Rio de Janeiro.A experiência trouxe outra questão para seu trabalho: quem conta a história de um objeto indígena quando ele está dentro de um museu?Para Francy, a resposta precisa envolver os próprios povos.“Eu acho que, no pós-doutorado, já fui para outro conjunto, que é a comunidade, os acervos, os museus indígenas, os objetos dentro dos museus, as peças, a requalificação. Então, acho que são outras curadorias, outras formas de entendimento. O que é curadoria para os territórios indígenas?”, questiona.

A pergunta não é apenas sobre museologia. É sobre poder. Sobre quem escolhe o que será mostrado, como será contado e quais conhecimentos serão considerados importantes.“Tive a oportunidade de requalificar e trabalhar em projetos da UNESCO no Museu Nacional dos Povos Indígenas, no Rio. Então, sempre nesse contexto, a gente vai furando as bolhas e mostrando a nossa capacidade de fazer parte daquele mundo, da coordenação de projetos, de estar numa curadoria, de estar numa consultoria. Então, acho que fui mediando esse mundo e fui parar no meio, hoje, como professora. Essa é uma caminhada que faço desde o território, passando pela universidade e por essas instituições, como os museus”, conta.

Uma conquista que não é só dela

A pesquisadora não fala da chegada à USP como uma conquista individual. Quando conta sua história, quase sempre volta para a comunidade, para as mulheres, para os mais velhos e para os jovens que virão depois.Essa perspectiva também está relacionada à própria experiência de ser mulher indígena na universidade. Para estudar, ela precisou deixar os filhos na comunidade aos cuidados dos pais. A distância, segundo conta, cria uma experiência compartilhada entre mulheres indígenas que chegam ao ensino superior.

“Quando uma mulher vem para a universidade, a gente entende o que se passa, porque nós, que somos mães e precisamos deixar os filhos nas comunidades com os nossos pais para poder estar na universidade, sentimos e nos fortalecemos muito, dando esse apoio emocional, dizendo para outras mulheres que vai dar tudo certo, porque a gente já passou por esse caminho”, afirma.

A caminhada também teve momentos difíceis. Francy fala de críticas, cobranças e da necessidade de encontrar forças para continuar.“Eu sempre falo que nós, mulheres, somos muito fortes. Às vezes, você acha que as mulheres são frágeis, mas, pelo contrário, a gente tem uma força ancestral de outros mundos. Porque eu acho que, para a gente carregar tanta responsabilidade, tantas críticas construtivas e, às vezes, algumas críticas que te deixam para baixo, você olha para o seu currículo e diz: ‘Não, o meu povo precisa de mim. Eu não vou desistir’”, diz.

Para ela, cada indígena que chega a uma universidade ou instituição cultural ajuda a abrir espaço para os demais. Por isso, uma aprovação, uma publicação ou uma nomeação não pertence apenas à pessoa que a conquista.“Eu sempre falo que existem várias mulheres que estão nesses espaços conquistando, e cada ocupação de um lugar, seja no movimento indígena ou em outros espaços, a gente vibra junto. Quando alguém passa em um concurso, a gente vibra junto, parabeniza, a gente fica feliz com cada território que vai ocupando esses espaços, independentemente do povo. Eu acho que, quando a gente ocupa um espaço, a conquista é coletiva”, afirma.

Ela usa uma imagem para explicar esse movimento: reflorestar.“Então, acho que, a cada conquista, a gente vai vibrando e vai reflorestando esses espaços, mesmo que seja bem devagarzinho. Mas a gente já marca aquele espaço, aquele território. E, se um dia eu não conseguir aguentar, eu tenho um território que vai me acolher. Então, acho que eu estou de cabeça erguida, dizendo: ‘Não, vou tentar’. Porque acho que essas tentativas sempre estão nesse contexto de superação, de limites, de resistência, dessa força que a gente vai construindo”, afirma.

A frase talvez seja a melhor síntese do caminho que trouxe Francy até a USP. Ela chega a uma instituição que, como diz, não foi pensada para dialogar com os territórios indígenas, mas chega sem romper com eles.Entre a universidade e a roça, os museus e as narrativas, a pesquisa acadêmica e a vida comunitária, Francy Baniwa passa a ocupar um lugar inédito na história da USP. E leva consigo uma certeza construída desde o rio Içana: o conhecimento não começa na universidade.“Então, acho que falar para os parentes assim: mergulhem, superem esses desafios, filhos, mas sempre olhando para o território, porque acho que o território é o que nos dá força para a gente continuar. Quando você está mal, com a condição psicológica e mental abalada, você retorna para o território, renova as energias e volta para a universidade. Então, acho que a nossa força é o nosso território, e a nossa resistência são os nossos povos.” É desse lugar que ela agora entra na sala de aula. Não para deixar o território do lado de fora, mas para fazer com que ele também esteja presente.

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