Na série “Mães da Resistência”, rapper indígena fala sobre maternidade, criação de um filho trans, violência e transmissão da ancestralidade.
A rapper e ativista indígena Katu Mirim, 39, é um dos nomes mais conhecidos do meio artístico indígena na atualidade. Voz ativa na luta pelos direitos de indígenas LGBT+, ela faz parte do coletivo Tybyra e é mãe de Dimitri, de 16 anos. Neste mês de maio, a Mídia Indígena lança a série de reportagens “Mães da Resistência”, que retrata a vida, os desafios e as conquistas de mães indígenas de diferentes biomas e contextos sociais. A série mostra como essas mulheres vivem a maternidade em meio às lutas pelos direitos indígenas, pela defesa dos territórios e pela ocupação de espaços de liderança.
Em entrevista exclusiva à Mídia Indígena, Katu contou que a maternidade chegou cedo, aos 23 anos, e em meio ao luto. A rapper descobriu a gravidez enquanto vivia um relacionamento tóxico. Duas semanas antes do nascimento do filho, perdeu o pai e, sem rede de apoio, enfrentou sozinha o puerpério.“Foi tudo muito novo. Era luto e nascimento ao mesmo tempo”, resume.
Katu afirma que a maternidade aprofundou sua percepção sobre a ausência de suporte às mães indígenas no país. Hoje, ela é conhecida por levantar debates sobre identidade indígena, sexualidade e racismo. “A mãe indígena é muito julgada e pouco apoiada. As pessoas romantizam dizendo que somos guerreiras, que aguentamos tudo, e, por isso, não nos apoiam”, afirma a artista.
Ela destaca que, além desses desafios, mulheres indígenas enfrentam violências em diferentes espaços.“Sofremos violência no parto, nas ruas e nas comunidades”, denuncia.Aos 8 anos, o filho da artista se descobriu uma criança trans. Desde então, Katu passou a lidar também com o medo da violência direcionada à população trans no Brasil.“Meu filho é um menino trans e eu sinto medo o tempo todo. Sinto medo quando ele está na escola, na rua. A causa trans também é minha. Já passei por muitas situações complicadas na escola e sempre lutei pelos direitos do meu filho”, relata.
A artista também falou sobre a intimidade entre os dois e disse que eles mantêm uma relação próxima, embora tente respeitar os limites da adolescência.“Meu filho tem 16 anos, está naquela fase da adolescência. Nossa relação é boa, somos amigos, mas eu tento muito respeitar essa fase dele”, comenta.
No início do processo, a ativista disse ter enfrentado conflitos dentro do ambiente escolar e buscado acompanhamento psicológico para compreender melhor o que o filho,e ela própria, viviam.“No começo, eu não entendia direito o que estava acontecendo. Procurei ajuda psicológica principalmente para mim e depois para ele. A terapia apenas confirmou quem meu filho é”, detalha.
Para Katu, a maternidade também se tornou um espaço de aprendizado sobre escuta e liberdade. Ela afirma que criar um filho exige abandonar projeções e aceitar a individualidade da criança.“A maternidade nos ensina a amar o outro como ele é. Meu filho não nasceu para ser o que eu quero que ele seja”, enfatiza.
A artista
Nascida no interior de São Paulo, Katu Mirim é uma das principais vozes indígenas contemporâneas nas redes sociais e na música. Uma das fundadoras do coletivo Tibira, voltado à visibilidade indígena LGBTQIAPN+, ela ganhou projeção nacional com a campanha #ÍndioNãoÉFantasia e com músicas que discutem colonização, racismo e apagamento indígena.
Ao longo da carreira, participou de eventos como o Rock in Rio e a São Paulo Fashion Week, além de atuar em debates sobre identidade indígena e diversidade sexual. Ela afirma que parte do preconceito que enfrenta vem justamente da tentativa de enquadrar indígenas em imagens fixas e estereotipadas.“Nós, mães indígenas, estamos em vários contextos. A mãe da aldeia educa junto à natureza. A mãe da periferia ensina o filho a sobreviver ao corre da comunidade”, destaca. Apesar das diferenças, ela aponta que existe um elemento comum entre essas maternidades: a transmissão da memória ancestral.“Uma coisa nos une: fazemos questão de passar nossa ancestralidade para eles”, observa.
Neste Dia das Mães, Katu diz esperar que outras famílias consigam construir relações menos baseadas em controle e mais em acolhimento.“Que possamos amar nossos filhos e seus espíritos, que possamos ser lar, abrigo e amor. Seu filho não nasceu para ser o que você quer que ele seja. Ele é um espírito livre para encontrar o próprio caminho”, finaliza.


