MPF pediu a condenação de Antônio Wilson Guajajara. Defesa afirma que a liderança atuou como porta-voz de uma decisão comunitária.
A comunidade da aldeia Maçaranduba, na Terra Indígena Caru, no Maranhão, denuncia a criminalização do cacique Antônio Wilson Guajajara após uma mobilização que cobrava da mineradora Vale a construção de uma ponte sobre o rio Pindaré. Em 28 de setembro de 2026, o Ministério Público Federal (MPF) pediu sua condenação por extorsão mediante sequestro qualificada.
O episódio ocorreu em 25 de janeiro de 2024, durante uma reunião com representantes da Vale e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Segundo relatos enviados pela comunidade à Mídia Indígena, os moradores reivindicavam a ponte havia anos e afirmam que a empresa havia assumido um compromisso com a obra. Nos autos, a Vale sustenta que a construção não integrava suas obrigações.
Após receberem a informação de que a empresa não construiria a ponte, os moradores impediram a saída da funcionária da Vale presente na reunião, exigindo uma resposta concreta dos responsáveis pela empresa. Ela permaneceu na aldeia até o dia seguinte e foi liberada após intermediação da Polícia Federal.
Para o MPF, a privação de liberdade por mais de 24 horas foi utilizada para pressionar a empresa a executar a obra. A defesa contesta a responsabilização individual do cacique e sustenta que ele atuou como porta-voz de uma deliberação coletiva.
Ponte é reivindicada para garantir uma travessia segura
Um ofício da Associação Indígena Comunitária Wirazu, de março de 2024, relata acidentes, mortes por afogamento e dificuldades para transportar pessoas doentes, alimentos e materiais pelo rio Pindaré.
O documento reúne fotografias de travessias precárias, incluindo uma pessoa adoecida transportada em rede numa canoa e um caminhão submerso após o afundamento de uma balsa. A associação afirma que a ponte facilitaria o acesso à saúde, à educação, à infraestrutura e o escoamento da produção das comunidades.
Defesa solicita perícia antropológica
A defesa pediu a elaboração de um laudo antropológico para esclarecer a organização social Guajajara, o papel do cacique e o processo de decisão comunitária. Nas alegações finais, o MPF solicitou o indeferimento da perícia, argumentando que seria desnecessária, além de requerer a condenação.
Na cópia do processo encaminhada à Mídia Indígena, extraída em 29 de setembro de 2026, não consta sentença condenatória. O pedido do Ministério Público ainda depende de decisão judicial.
A Terra Indígena Arariboia também manifestou solidariedade ao cacique, à sua família e à comunidade. Em nota, repudiou a criminalização da liderança e afirmou: “A luta dos povos indígenas não pode ser transformada em crime.”