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Divino Tserewahú: ‘Se um dia eu morrer, a minha história está aqui’, diz cineasta sobre filme premiado em Gramado que registrou sua trajetória

“Divino: Sua Alma, Sua Lente”, dirigido por Gilson Moraes da Costa e Clea Torres, com co-direção do próprio Divino, ganhou dois Kikitos no Festival de Cinema de Gramado.

Por Luana Tarairiú

“Se um dia eu morrer, a minha história está aqui, junto à história do meu trabalho.” É assim que o cineasta indígena Xavante Divino Tserewahú define o significado de ter sua trajetória registrada em um filme. O documentário “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, que tem o cineasta como co-diretor e protagonista, conquistou dois Kikitos na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, um dos principais festivais de cinema do Brasil.


A produção venceu nas categorias Melhor Montagem e Júri Popular, na mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros. Dirigido por Gilson Moraes da Costa e Clea Torres, com co-direção de Divino Tserewahú, o documentário acompanha cerca de 35 anos de trabalho do cineasta do povo Xavante.


A diretora Clea Torres afirmou que os dois Kikitos representam um reconhecimento ao trabalho audiovisual desenvolvido na região do Araguaia. Na avaliação dela, o destaque do documentário está na relação entre audiovisual e memória.

“Esse filme representa a essência do que estava sendo valorizado no festival: o cinema como registro da memória. Foi por meio do audiovisual que Divino registrou momentos singulares do seu povo, deixando documentados rituais que já não existem mais e ensinamentos de anciões que já partiram”.


Para o diretor Gilson Moraes da Costa, uma das principais descobertas durante a produção foi compreender, na convivência com a comunidade, a dimensão que o trabalho de Divino tem para o povo Xavante. A participação do próprio Divino na construção do roteiro, segundo o diretor, foi fundamental para definir o caminho da narrativa.


“O filme trouxe para a cena aquilo que o Divino quis apresentar para as pessoas. A gente respeitou muito esse processo de escolha do Divino, e isso foi fundamental para o fortalecimento da narrativa.”

A lente de Divino

Desde o início da carreira, Divino conta que já pensava no destino das imagens que produzia e na importância de preservá-las para as próximas gerações. Para ele, os registros feitos ao longo de 35 anos deixaram de ser apenas filmes e passaram a formar um acervo da memória do povo Xavante.


“Então, quando comecei a filmar, quando comecei a trabalhar, quando comecei a minha carreira de filmagem, eu já pensava logo no início, sempre pensei, as imagens que eu estou fazendo, as imagens que estou realizando, vão virar arquivo vivo. É por isso que eu falo, o futuro já foi conquistado, o futuro que eu pensava dos meus registros, das imagens, do arquivo, está aí, é memória, memória viva. Então, está virando tudo arquivo, acervo.”

Além de preservar o passado, Divino vê os registros como uma forma de preparar o futuro. O cineasta espera que jovens de sua comunidade deem continuidade ao trabalho iniciado por ele.


“Minha esperança hoje em dia, enquanto eu estou vivendo, é que os jovens, alguns alunos nossos, têm que fazer força para chegar no caminho onde eu cheguei, para substituir futuramente o meu trabalho.”



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