Wynoã Tukumãí, filho dos ativistas Samela Sateré-Mawé e Tukumã Pataxó, se torna o primeiro bebê indígena embaixador da marca e reacende o debate sobre representatividade, publicidade e infância indígena.
“Eu acredito que o impacto da participação do Wynoã nessa campanha pode abrir portas para outros indígenas, outros bebês, outras crianças e até mesmo para outros indígenas serem contratados por marcas. A gente vive num Brasil onde a cultura indígena e a visibilidade indígena quase nunca são representadas por essas marcas, e eu espero que isso abra os olhos das empresas, porque a gente também consome esses produtos, mas não se vê representado”.
A fala é de Samela Sateré Mawé, ativista e influencer indígena, ao comentar a repercussão da campanha da Johnson’s Baby protagonizada por seu filho, Wynoã Tukumãi, de apenas um ano, primeiro bebê indígena a se tornar embaixador da marca. A participação inédita do bebê em uma campanha nacional de grande alcance tem provocado debates sobre representatividade indígena, estereótipos históricos e os limites entre publicidade, infância e ativismo.
Samela reforça que a dimensão simbólica da campanha vai além da visibilidade individual. “É muito bom ver o tamanho da repercussão que isso está trazendo. A gente que é ativista desde a nascença, que carrega esse legado de luta e resistência, sente um orgulho muito grande, porque nosso filho acaba seguindo esse caminho também. Ele desconstrói muitas coisas só por estar ali”, afirma.
Para ela, a presença de Wynoã ajuda a desmontar imagens ainda muito enraizadas no imaginário social. “As pessoas ainda acham que indígena não usa fralda, que indígena não usa os mesmos produtos, que indígena não toma banho. Então essa campanha também serve para desconstruir esses estereótipos que foram criados sobre os nossos corpos e sobre os nossos povos”, diz.
“É um jeito de lutar pela pauta indígena com um gesto simples, que é participar dessas campanhas, e ao mesmo tempo trabalhar em prol dos povos indígenas”, complementa.

“Desde que a gente se inscreveu, apareceram muitos comentários assim: ‘nunca vi índio de fralda’, ‘índio tomando banho’. Isso mostra o quanto essa discussão ainda é necessária”, conta.
Representatividade
Já Tukumã Pataxó, pai do Wynoã, também ativista indígena, reforça que o objetivo não é apenas aparecer em campanhas publicitárias, mas ocupar espaços historicamente negados aos povos indígenas.
“A gente precisa ir além dessas campanhas em que só se fala de produto. Precisa estar inserido nos próprios produtos. Quando você vai comprar uma fralda, é muito difícil ver um bebê indígena estampado ali. Eu nunca vi. E isso diz muito sobre quem é considerado parte desse mercado”, afirma.
O ativista também chama atenção para os cuidados envolvidos ao expor uma criança. “A criança não compreende esse mundo da publicidade, essas regras. Ela só quer brincar e ser feliz. Nosso maior cuidado é fazer com que isso não tire isso dela”, diz.
Ele reforça que a gravação da campanha foi pensada para não romper a rotina do filho. “A gente gravou em um hotel de selva, foi tratado como um momento de lazer da família. Ele se divertiu. Não pode ser algo sufocante”,enfatiza.


Para Tukumã, a presença indígena no mercado publicitário é, inevitavelmente, política. “No movimento indígena, a gente sempre diz que nosso corpo é um corpo político. Estar nesse espaço é mostrar que existe diversidade entre os povos indígenas e que a gente pode ocupar qualquer lugar sem deixar de ser indígena. Ainda existe a visão de que o indígena precisa de autorização para tudo. A gente quer quebrar isso”, destaca o ativista.
Samela reforça que a imagem de Wynoã em uma campanha nacional também dialoga com a própria infância dos pais. “Quando a gente se torna mãe ou pai, sempre vê aquele bebê padrão estampado nos produtos, mas nunca um bebê indígena. Isso também fala sobre ausência de referência”, diz. “Hoje, ver nosso filho ali é saber que outras crianças indígenas podem crescer se vendo nesses espaços”, pondera.
“É um passo importante”, resume Samela. “Mas ainda tem muita coisa para ser desconstruída”, conclui.