Publicação reúne vozes de mulheres indígenas de diferentes povos e estados e propõe uma leitura da bioeconomia a partir dos territórios
Mestra e doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), a antropóloga indígena Braulina Baniwa, 41, do povo Baniwa, coordena o dossiê Bioeconomia Indígena Feminina da Amazônia: Vozes das Gerações, publicação lançada em 2025 pela iniciativa Uma Concertação pela Amazônia. O trabalho reúne entrevistas com mulheres indígenas de diferentes povos e estados da Amazônia Legal e propõe uma leitura da bioeconomia a partir dos territórios e das experiências femininas
Segundo Braulina, o ponto de partida do dossiê é o apagamento histórico dos povos indígenas e, em especial, das mulheres, nos debates sobre economia e desenvolvimento.
“Quando se fala de povos indígenas, ainda existe essa ideia de que a gente não produz, de que somos um problema para o desenvolvimento. E, quando começa a discussão sobre economia verde e economia sustentável, quase não havia presença indígena nas publicações e pesquisas. Eram textos escritos por não indígenas, sem diálogo com os territórios”, afirma.
A antropóloga conta que passou a se dedicar ao tema a partir de 2021, quando foi convidada a integrar uma equipe de pesquisa vinculada a estudos sobre a nova economia da Amazônia. Desde então, seu trabalho tem buscado inserir as perspectivas indígenas no debate, especialmente a partir do olhar das mulheres.
“A minha colaboração vem justamente no sentido de trazer a presença dos povos indígenas e discutir essa pauta da economia a partir da forma como nós entendemos isso dentro do território. Não é uma economia só de dinheiro, é uma economia que envolve o cuidado, o tempo, a floresta e as relações”, diz.
O trabalho
O dossiê é composto por entrevistas com sete mulheres indígenas, entre lideranças, artesãs e comunicadoras. Parte das entrevistas foi realizada com o apoio de estudantes indígenas da graduação, em um processo coletivo de escuta e reflexão sobre o que significa bioeconomia nos territórios.

“Foi a minha primeira experiência de ouvir as mulheres nesse formato de entrevista. Elas compartilham como a bioeconomia aparece no dia a dia, na produção das artes, na medicina indígena, na relação com a floresta. E também falam das ausências: produtos que não existem mais por causa da mudança climática, da dificuldade de acesso à matéria-prima, do impacto do garimpo”, relata.
Para Braulina, a publicação evidencia que a discussão sobre bioeconomia não pode ser dissociada da luta pela terra. A demarcação aparece como condição básica para a continuidade dessas práticas. “As mulheres deixam muito claro que, sem território demarcado, a bioeconomia não existe. Porque não existe floresta, não existe matéria-prima, não existe ciência. A bioeconomia, para nós, nasce no território”, afirma.
A antropóloga destaca ainda que o trabalho confronta a forma como as mulheres indígenas costumam ser representadas na literatura acadêmica e nos discursos institucionais.
“As mulheres indígenas sempre apareceram como complemento dos homens, dos caciques, das grandes lideranças. O que esse trabalho mostra é que são elas que mantêm a ciência viva dentro dos territórios. São elas que transmitem esse conhecimento para outras gerações e que formam as lideranças que depois aparecem”, diz.
Embora não seja uma pesquisa acadêmica tradicional, o dossiê dialogou com economistas antes da publicação. Para Braulina, esse processo revelou o quanto o debate econômico ainda ignora as práticas das mulheres indígenas.
“Quando a gente levou esse trabalho para discussão com economistas, muitos disseram que nunca tinham olhado para esse lado da bioeconomia. Existe um processo de invisibilidade muito forte, ao mesmo tempo em que há um protagonismo enorme das mulheres na ponta”, afirma.
Segundo ela, a publicação marca apenas o início de um processo mais amplo de debate e aprofundamento. “Esse é um trabalho que está começando. A ideia é seguir ouvindo essas mulheres, aprofundar a discussão sobre ciência indígena e tecnologias sociais e continuar disputando o que é bioeconomia para dentro dos territórios”, conclui.
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