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Povos do Baixo Tapajós intensificam resistência em Santarém e bloqueiam acesso ao aeroporto após ocupação de porto

Mobilização de povos do Baixo Tapajós cobra consulta prévia sobre projetos de dragagem no rio e pressiona governo federal por diálogo.

Após 13 dias de ocupação do porto da multinacional Cargill em Santarém, no oeste do Pará, lideranças indígenas e aliados ampliaram nesta quarta-feira (4) um protesto que já mobiliza povos do Baixo Tapajós. Além do bloqueio no terminal portuário, os manifestantes passaram a bloquear a estrada de acesso ao aeroporto da cidade, tornando mais visível a mobilização contra projetos que, segundo eles, ameaçam o rio Tapajós e seus territórios tradicionais.

Indígenas de ao menos 14 povos, organizados pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA), tomaram a entrada do terminal da multinacional desde 22 de janeiro, denunciando a falta de consulta prévia, livre e informada, garantia prevista na Constituição e na Convenção 169 da OIT, sobre medidas ligadas à dragagem e à concessão de hidrovias na bacia do Tapajós.

Segundo os manifestantes, o edital lançado pelo governo federal prevê trabalhos de dragagem no leito do Tapajós para permitir maior escoamento de cargas agrícolas e facilitar o transporte por grandes embarcações. Eles argumentam que a obra pode alterar o ecossistema do rio, afetar a pesca tradicional, e ser implementada sem licença ambiental adequada e sem diálogo com as comunidades indígenas e ribeirinhas.

Nesta nova fase do protesto, o bloqueio da rodovia que dá acesso ao aeroporto de Santarém foi motivado pelo desejo de ampliar a visibilidade da mobilização e pressionar por resposta das autoridades federais. A interrupção da circulação de veículos à entrada do terminal aéreo gerou impacto no trânsito local, embora até o momento não haja registro de confrontos ou ações de força contra os manifestantes.

Segundo relatos de apoiadores da ação, a ocupação no porto seguiu ininterrupta por quase duas semanas, com indígenas e movimentos sociais revezando-se no local para manter o bloqueio e reforçar suas reivindicações.

Por meio de nota pública, as lideranças do movimento reiteraram a exigência de revogação de decretos que autorizaram as obras e licitações relacionadas aos rios amazônicos, além da suspensão dos editais de dragagem que, para eles, configuram ameaça às comunidades tradicionais. A mobilização também contou com apoio de organizações da sociedade civil e manifestações complementares, como barqueatas nas águas do Tapajós.

A empresa Cargill, alvo do protesto, afirmou em comunicados à imprensa que não controla as decisões do governo federal sobre a dragagem ou concessões de hidrovias, e que respeita o direito à manifestação, embora tenha mencionado que a presença de pessoas no entorno de suas instalações tem impedido o acesso de caminhões ao terminal.

Até o fechamento desta edição, não havia informações de que o governo tenha revertido as medidas contestadas, nem datas marcadas para um diálogo formal entre representantes federais e as lideranças indígenas.

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