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Editora Pindorama Comics estreia com quadrinho indígena que reimagina a história antes da colonização

Fundada por Sol Itaputyr, do povo Jiripankó, do sertão de Alagoas, a editora lança sua primeira obra com narrativa indígena protagonizada por uma guerreira que atravessa o tempo para impedir a invasão de Pindorama

Criada para fortalecer e difundir narrativas originárias por meio dos quadrinhos, a Pindorama Comics lança neste sábado (7) sua primeira edição, marcando a entrada de uma nova editora no cenário dos quadrinhos brasileiros. O lançamento será feito de forma remota, através do site da editora.

A idealizadora do projeto é Sol Itaputyr, indígena do povo Jiripankó, originário do município de Pariconha, no sertão de Alagoas, atualmente radicada em São Paulo. Prestes a completar 40 anos, ela idealizou a editora a partir de uma inquietação pessoal e política com a ausência de narrativas indígenas no universo dos quadrinhos. “Eu sempre gostei muito de quadrinhos, mas sentia um incômodo enorme. Nenhuma narrativa aparecia comigo, nenhuma falava da minha origem ou dos povos originários. Tudo o que eu encontrava era colonial, encaixando tudo numa caixinha que não era minha. Chegou um momento em que eu pensei: se essa história não existe, alguém precisa escrevê-la”, afirma.

A publicação inaugural da Pindorama Comics apresenta uma história de ação histórica e fantasia protagonizada por Itaputyr, uma guerreira indígena que, ao lado de seu pajé, é lançada por um ser encantado através de um portal temporal para a Europa do século XV. O destino é Toledo, em 1479, um dos centros de poder que daria origem ao império responsável pela invasão e destruição de territórios indígenas séculos depois. A missão é direta e radical: impedir o nascimento desse império antes que ele atravesse o oceano.

Segundo Sol, a escolha por uma protagonista feminina indígena dialoga tanto com sua trajetória pessoal quanto com a necessidade de ampliar referências para mulheres indígenas.

“Eu sou mãe, tenho dois filhos, cuido sozinha da correria da vida, dos boletos, de tudo. Fazer quadrinho é cansativo, teve um dia que quase parei. Mas continuei porque essa narrativa não é só para mim. É para outras mulheres indígenas que cresceram achando que só existia a Mulher-Maravilha para se inspirar. A protagonista precisava ser uma mulher indígena. E também fiz isso pelos meus filhos, para que eles cresçam sabendo que a história deles não começou no apagamento”, conta

Ao longo da trama, a personagem atravessa cidades, reinos e rotas estratégicas da Europa medieval, enfrentando soldados, nobres e figuras ligadas às grandes navegações. O enredo propõe uma reflexão sobre colonização, violência histórica, escolhas morais e choque cultural, ao mesmo tempo em que imagina um exercício narrativo provocador: como seria o mundo se a invasão não tivesse acontecido?

A construção visual do quadrinho reúne referências de diferentes povos indígenas, com atenção especial ao Nordeste, região historicamente marcada pelo apagamento de suas populações originárias. “A protagonista carrega pinturas de vários povos de Pindorama. O pajé usa vestimenta Tupi-Tupinambá. Tentei trazer referências de muitos povos, mas principalmente do Nordeste, que foi o primeiro lugar invadido. Existe esse discurso de que o Nordeste não tem indígena, quando, na verdade, é a região com a maior concentração de povos indígenas. Quero mostrar isso também através do quadrinho.”

A primeira edição será lançada em formato digital, no modelo Webtoon, e distribuída gratuitamente. A decisão, segundo a fundadora, está ligada tanto ao acesso quanto a uma escolha ambiental.

“Os quadrinhos físicos estão cada vez mais caros e dependem de papel e celulose. Todo esse processo de desmatamento pesa. Por isso decidimos lançar online. E os primeiros a ter acesso ao quadrinho serão os povos originários. Isso foi algo que eu defini desde o início. Depois, os não indígenas também vão poder acessar.”

Sem patrocínio, o projeto foi desenvolvido de forma independente. A distribuição inicial será feita com apoio de lideranças indígenas, antes de ser aberta ao público geral por meio da página da editora. A obra também dialoga com outras linguagens artísticas: a trilha sonora do quadrinho é assinada pela banda indígena Arandu, de Brasília.

Para Sol Itaputyr, os quadrinhos são uma ferramenta potente para provocar reflexão sobre temas contemporâneos, como crise climática, apagamento histórico e os impactos contínuos da colonização. “Mesmo quando a gente fala, muitas vezes não é ouvido. Mas eu venho do universo da cultura pop e vejo como esse interesse só cresce. Estou abrindo uma porta para que outros artistas indígenas sejam vistos, tenham suas vozes ouvidas e possam contar suas histórias.”

A fundadora também relaciona o projeto à sua própria experiência como indígena em contexto urbano e aos efeitos prolongados da colonização sobre os povos originários. “Eu sou fruto de apagamento, venho de retomada. Isso afeta tanto indígenas que vivem em aldeias quanto quem está nas cidades. As pessoas não têm noção de como o modo de vida atual é prejudicial. Amanhã, talvez não tenhamos água para beber ou ar puro para respirar. Esse trabalho é sobre consciência, memória e futuro”, disse.

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