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Brô MC’s: rap indígena como denúncia, memória e resistência a partir da aldeia

Primeiro grupo de rap indígena do Brasil, os Brô MC’s transformam o hip-hop em ferramenta política para expor o racismo, a violência territorial e as lutas do povo Guarani e Kaiowá, enquanto preparam novos lançamentos audiovisuais.

Os Brô MC’s, primeiro grupo de rap indígena do Brasil, fizeram da música uma ferramenta direta de denúncia contra o racismo, a violência territorial e a marginalização histórica dos povos indígenas. No ano passado, o grupo lançou Retomada, seu primeiro álbum em língua guarani, e, neste ano, prepara os conteúdos audiovisuais do trabalho.

A Mídia Indígena conversou com dois integrantes do grupo, Kelvin Mbaretê e Bruno Veron, para saber como será o ano de um dos grupos de artistas indígenas mais reconhecidos do Brasil e entender como essa história começou.

Kelvin Mbaretê, um dos integrantes do grupo, conta que eles cantam rap a partir da aldeia, em guarani e português, para expor uma realidade que costuma ser silenciada fora do território. “O rap entrou na nossa vida no momento em que a gente mais precisava ser ouvido. Na nossa comunidade existia, e ainda existe, muito preconceito, muita discriminação, falta de espaço. A gente sentia isso na pele. O rap virou uma flecha, uma forma de responder a tudo isso”, afirma.

Ele lembra que o rap chegou à comunidade por meio das rádios, com os principais nomes nacionais, como Racionais MC’s, Mano Brown e Gabriel, O Pensador. Outro meio importante para o conhecimento do gênero foram os CDs e DVDs trazidos por parentes que migravam para trabalhar fora do território. Kelvin conta que, no começo, a relação era mais com o som do que com a mensagem. “Eu era moleque, tinha uns 12 anos. Curtia a batida, a vibe, aquele som mais pesado. Ainda não prestava atenção na letra”, lembra.

Com o avanço das retomadas e o aumento da violência no território, as letras passaram a ganhar outro sentido. “Quando comecei a estudar o que o rap dizia, vi que aquilo dialogava totalmente com o que a gente estava vivendo”, salienta.

FOTO: REPRODUÇÃO REDES SOCIAIS

Os primeiros passos

A consolidação do Brô MC’s veio a partir do encontro entre jovens Guarani e Kaiowá interessados em usar o hip-hop como forma de expressão política. Oficinas de rap e o contato com outros artistas da periferia de Dourados ajudaram a estruturar o grupo. “Foi quando a gente entendeu que o hip-hop é um movimento social, que serve para levar a voz dos excluídos”, diz Kelvin. “E até hoje os indígenas continuam sendo excluídos, seja na cidade, na escola ou nos espaços de decisão.”

Os integrantes do Brô MC’s pertencem à Reserva Indígena Francisco Horta Barbosa, aldeias Jaguapiru e Bororó, em Dourados (MS), território onde ainda há grandes conflitos e invasões territoriais por fazendeiros e grileiros. Mesmo com toda a opressão, foi ali que o grupo deu os primeiros passos. Os primeiros shows aconteceram em escolas, aldeias e eventos locais, muitas vezes sem estrutura técnica. “No começo, a gente cantava só no gogó, sem instrumental”, lembra Bruno Veron.

“O mais importante era que as pessoas acreditavam na gente e diziam para não desistir”, complementa. A partir dessas apresentações, o grupo passou a circular em festivais e a alcançar públicos fora da aldeia. “Quando a gente sobe em um palco grande, não é só o Brô MC’s que está ali. É o povo Guarani e Kaiowá também”, afirma Bruno.

Ao longo da trajetória, o grupo enfrentou limites impostos pelo mercado musical e pelo contexto político do Mato Grosso do Sul. Bruno conta que ser um grupo indígena independente e tratar diretamente de temas como demarcação de terras, violência e racismo ainda fecha portas. “Não dá para romantizar. A gente não vive de música. Falar dessa realidade incomoda. Aqui é um estado onde o agronegócio tem muita força, e isso pesa”, enfatiza.

Apesar das dificuldades, o Brô MC’s se tornou referência dentro e fora do território. O trabalho do grupo passou a ser discutido em escolas e universidades e apareceu em vestibulares e provas nacionais, ampliando o debate sobre culturas indígenas contemporâneas. “Hoje a gente vê crianças e jovens da aldeia se interessando pelo hip-hop. Isso é uma mudança concreta”, afirma Kelvin. “Mostra que o indígena não está preso ao passado.”

Último álbum, festivais e novos passos

O álbum Retomada, lançado pelo grupo no ano passado, marcou uma nova etapa na trajetória do Brô MC’s. Com letras em guarani e português, e com 9 faixas,  o trabalho aprofunda temas recorrentes na discografia do grupo, como as retomadas de terra, o racismo institucional e o impacto da violência sobre as comunidades indígenas. As faixas seguem sendo apresentadas em shows e agora começam a ganhar desdobramentos no audiovisual. https://www.instagram.com/p/DOyaKOBDRc_/

“Este ano, a gente está focado em lançar videoclipes do álbum que saiu no ano passado. É uma forma de continuar fazendo a música circular e alcançar mais gente”, afirma Bruno Veron. Segundo ele, o grupo também trabalha em novas composições. “Estamos em estúdio pensando em músicas novas, em single, talvez um EP. A ideia é seguir produzindo.”

A circulação do álbum levou o Brô MC’s a festivais de grande porte e ampliou a visibilidade do grupo fora do circuito indígena. Para Bruno, ocupar esses espaços tem um peso simbólico. “Para nós, como indígenas, estar em grandes festivais é uma conquista. Mas a gente nunca esquece de onde veio. A gente sobe no palco levando junto a realidade da aldeia”, destaca.

Kelvin ressalta que cantar em guarani é uma escolha central do trabalho. “Mesmo que a pessoa não entenda a letra, ela sente a música. A gente fala do cotidiano, das retomadas, da discriminação. É para entender com o coração. O que a gente canta é o que a gente vive”, salienta.

Para os próximos meses, além dos videoclipes, o Brô MC’s planeja ampliar a circulação dos shows, incluindo apresentações em comunidades indígenas de outros estados e fora do país. “Muita gente ainda acha que indígena só existe na Amazônia. A gente quer mostrar que existem muitos povos, em todo o Brasil, e que a nossa realidade precisa ser conhecida”, diz Bruno.

Mais de uma década após o início da trajetória, o Brô MC’s segue usando o rap como registro do presente e instrumento de denúncia. “Enquanto essa realidade continuar existindo, a gente vai continuar falando”, resume Kelvin. “Porque o silêncio nunca foi uma opção para nós”, conclui o artista. 

FOTO: João Albuquerque/Dzawi Filmes /ISA

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